25 Outubro
Thursday
Morton Subotnick + Lillevan

Nesta edição de 2019, em que tantos sintetizadores modulares subirão ao palco do Semibreve, é um momento abençoado poder-se contar com a presença e música de Morton Subotnick, uma lenda absoluta da música electrónica e um agente inconformado que muito ajudou que a vanguarda estivesse sempre tangível para muitos. Se no fecho do festival, com Suzanne Ciani, vamos ouvir quem tão bem entendeu o Buchla, com Subotnick vamos ter o criador, com Don Buchla, das leis do sintetizador modular. Aos 86 anos, numa espantosa prova de eterna vitalidade e insubmissão, traz-nos duas composições de 2019: “As I Live and Breathe” e, inevitavelmente, “Silver Apples of the Moon”, numa revisitação desta obra-prima suprema de 1967 que ainda hoje nos espanta pelo seu arrojo contemporâneo. Nas imagens, a outra metade deste concerto, tão importante como o som: a trabalharem como um duo desde 2009, Subotnick assume a sua colaboração com Lillevan como um diálogo audiovisual, em permanente troca de estímulos e ideias. Criam espaço acolhedor para improvisação, deixando que obras ganhem originalidade em cada nova apresentação. Também por isso, esta noite de abertura do Semibreve será ímpar.

Alessandro Cortini

Com um currículo que forçosamente se liga aos Nine Inch Nails — é um recorrente e importante músico ao vivo para a banda de Trent Reznor e Atticus Ross —, Alessandro Cortini tem feito acentuado trabalho a solo que merece por mérito próprio os títulos de uma qualquer primeira página. Multinstrumentista exemplar, o italiano tem contudo investido o seu solitário amor na electrónica, quer seja pelo lado analógico onde mostra sabedoria exemplar nos sintetizadores modulares, quer pelo lado mais electrizante onde o seu rock subliminar ioniza a atmosfera do seu ambientalismo. Entre o onirismo poético e o sentimento de asfixiante ameaça, Cortini é um dos músicos que melhor expõe esta irrequieta e ambivalente panorâmica da música electrónica dos nossos dias. Os seus concertos são, por essa razão, oportunidades de nos confrontarmos fisicamente com estas poderosas grandezas, onde se junta também uma calorosa componente visual.

Ipek Gorgun

Novas histórias precisam-se e é comum chegarem de locais esperados, perto daquilo que julgamos ser o centro das operações. Mas esse centro é geralmente apenas o centro das atenções, porque alguém, por exemplo, como a artista sonora e visual Ipek Gorgun há muito se movimenta fora dos eixos instituídos. Em 2014, um convite da Red Bull Music Academy levou-a até Tóquio para partilhar cartaz com Ryoji Ikeda e OtomoYoshihide, colocando o seu nome nas ruas fora da sua pátria turca, tornando-a depois dessa viagem uma visitante frequente dos palcos mais esclarecidos da Europa. Depois de editar o seu último álbum “Ecce Homo” na prestigiada Touch, o mundo tornou-se definitivamente atento às suas delicadas e fecundas paisagens electrónicas e electroacústicas, e o nosso centro das atenções ficou maravilhosamente mais extenso e abrangente. Estamos gratos pela sua música mas também por nos tornar melhores ouvintes.

Nik Void

Habitualmente, Nik Void diz que a sua música procura o inesperado. Talvez tenha sido essa a distintiva característica que tão bem valeu aos Factory Floor assim que a integraram na sua formação. E também podemos dizer o mesmo de Chris Carter e Cosey Fanni Tutti que com Nik Void avançaram para um novo trio que actualizou de forma moralizadora a electrónica industrial dos ex-Throbbing Gristle. Depois de uma longa carreira na música quase sempre em companhia de outros, aproxima-se por fim o primeiro álbum de Nik Void, com edição planeada para 2020. No Semibreve, vamos todos ter a sorte de escutar o que aí vem: promete-nos ritmo fracturado, electrónica em condição pura, ruído faiscante, e o habitual manuseio encantatório da sua voz. À semelhança dos concertos de Factory Floor ou Carter Tutti Void, é bastante plausível que nos entreguemos de alma e coração à música que sairá desta fusão de matérias.

Avalon Emerson

Durante o dia, de segunda a sexta, Avalon Emerson escreve código para uma empresa de software informático; no que resta do seu tempo, dedica-se afincadamente a ser uma das mais cativantes produtoras e DJ da música de dança actual. Talvez nasça deste equilíbrio a explicação para o seu apurado sentido estético, onde pequenas partículas parecem fazer a diferença na sua electrónica, como se escrevesse o burilado código da sua música, peça a peça, como um ADN intransmissível. É por isso que, sem nos darmos conta, estamos submersos em espirais de energia futurista contagiante, entre os blips digitais e uma pulsação electro que controla com precisão o formigueiro no nosso corpo. 

26 Outubro
Thursday
Deaf Center

Não existe um manual de sobrevivência credível para esperarmos tanto tempo por algo que gostamos tanto. Mas, subjugando alguma ansiedade, acabámos por conseguir aguardar oito longos anos pelo sucessor de “Owl Splinters” — um feito alcançado com a óbvia ajuda dos inúmeros projectos de Erik Skodvin e Otto Totland, os dois elementos de Deaf Center. “Low Distance” prossegue, com uma mansidão tranquilizadora, o ambientalismo dominante do duo, algures entre música de câmara subterrânea e a electroacústica microscópica. Passaram oito anos, mas os dois noruegueses convidam-nos sem pressa para uma escuta profunda, em modo recolhido, onde compreendemos como o tempo poliu um rico léxico de recursos e transformou “Low Distance” numa obra de minimalismo ultra-apurado e de extrema beleza fragilizada.

Oren Ambarchi & Robert AA Lowe

Estreia mundial, estreia total, a primeira vez. Têm sido muitas, no Semibreve, ao longo destes anos, mas poucas nos obrigariam a preencher este texto com tantos adjectivos laudatórios: primeiro, porque se reúnem dois nomes essenciais da música deste século, depois porque isso ajudar-nos-ia a libertar alguma ansiedade por esta colaboração. Oren Ambarchi é um músico destemido e aventureiro, sem limites e com uma vontade indómita de se associar regularmente a alguns dos melhores músicos que existem. Por sua vez, Robert Lowe é actor principal dessa electrónica libertária que emana dos sintetizadores modulares, provando que a intuição é sempre melhor que um manual de instruções. Naturalmente aceitaram o convite do festival e obviamente criarão algo que nos fará vislumbrar o assombro da novidade. É este o poder que está nas mãos de quem insiste em quebrar moldes, questionar o que se sabe e começar tudo de novo: um belíssimo ciclo.

Drew McDowall + Florence To

Em 1997, quando Drew McDowall entregou os planos e esboços para um novo trabalho dos Coil a John Balance e Peter Christopherson, por certo estaria longe de acreditar o quanto mudaria a carreira do projecto e quão relevante se tornaria este álbum para a música experimental das décadas seguintes. Inspirado na música cerimonial do Tibete mas também de outras religiões que usam a música como propulsão para estados de transe, “Time Machines” é uma obra-prima da electrónica que mostra o poder absoluto que drones, perfeita e quimicamente afinados, podem alterar a nossa percepção do tempo. Para nos guiar pela espiral, Florence To desenhou no grande ecrã o cosmos perfeito para nos hipnotizar e ajudar a dissolver o tempo.

Clothilde

A descoberta de Clothilde nos últimos anos foi uma surpresa para todos nós, mas também uma surpresa para a própria Sofia Mestre que encontrou a criação sonora de modo inesperado e tardio na sua vida, depois de impelida para a manipulação dos sintetizadores modulares construídos pelo seu companheiro. O que lhe falta em experiência sobra-lhe em instinto, e o passado ausente dá-lhe um futuro auspicioso. Porque o seu presente é feito de uma busca pela novidade imaculada, pelo confronto com o desconhecido, esgravatando a música que sai dos seus artesanais instrumentos como se fosse uma dádiva miraculosa. As composições de Clothilde nascem de um inexplicável ímpeto criativo, autêntico e generoso, e dão-nos algumas das mais puras e intrigantes peças de electrónica contemporâneas que, sem qualquer hesitação, estão na linhagem directa de alguns mestres que idolatramos. Pelo imprevisto e, sobretudo, pela singularidade, Clothilde é o mais recente tesouro da nossa música electrónica. E como qualquer tesouro, convém não desviarmos o olhar do seu brilho.

Rian Treanor

Em março deste ano, Rian Treanor editou “Ataxia”, o seu primeiro álbum depois de alguns brilhantes EPs que colocaram o seu nome altamente detectável no radar da electrónica. “Ataxia” significa incoordenação patológica dos movimentos do corpo. E, de facto, lançarmo-nos para a música de Treanor é testarmos alguns dos nossos limites e observarmos como respondemos a eles. São composições angulosas e labirínticas, muitas vezes de geometria não convencional, feitas de estruturas assimétricas e padrões abruptos, mas poucas vezes ouvimos algo tão cristalino e com tamanha exactidão, onde pairamos estupefactos pela total ausência do supérfluo. Ou seja, qualidades letais para que o nosso corpo lhe obedeça cegamente, deixando-nos apenas a faculdade motora que articula o sorriso para que lhe agradecermos uma experiência que felizmente não iremos conseguir esquecer.

Kode9

Podemos largar-nos na pista de dança e aceitar a música que Kode9 nos dá, mas também podemos perceber a importância que Kode9 tem para uma parte significativa do resto da música que ouvimos. Para além de três álbuns de estúdio, o britânico fundou e dirige a Hyperdub, editora incontornável para se mapear uma boa parcela da música electrónica contemporânea insubordinada. Com ela, Kode9 teve um papel vital no estabelecimento do dubstep, refugiando o magistral espólio de Burial ou agitando a cena com Fatima El Qadiri, Laurel Halo ou Babyfather. Licenciado em Filosofia, algumas das suas reflexões sobre música e cultura sonora, são partilhadas e ensinadas em palestras e masterclasses académicas. Habituado a mergulhar bem fundo nos assuntos musicais, não se espera, por isso, que uma sessão de DJ de Kode9 seja menos que uma lição bem dada. Seremos alunos motivados para esta aula.

27 Outubro
Thursday
Felicia Atkinson

No último par de anos temos ouvido repetidamente o nome de Félicia Atkinson. Não apenas na música, onde vai mostrando um corpo de trabalho cada vez mais notável, mas também nas letras e artes visuais graças à fundamental Shelter Press, que dirige com Bartolomé Sanson. Através do valioso catálogo da editora vamos ficando a perceber o abrangente olhar de Atkinson ao mundo e de como tudo alimenta de modo harmonioso as suas composições: poesia concreta, sons perdidos, ruídos reciclados ou fragmentos estranhos coexistem de forma harmoniosa numa textura ambiental, colada de forma intuitiva numa estrutura electrónica delicadamente rarefeita e abstracta. Tudo estará disponível na sua mesa de trabalho mas só no momento de criação é que ouviremos como Félicia Atkinson construirá mais uma das suas admiráveis esculturas sonoras.

Scanner + Miguel C. Tavares

Robin Rimbaud mantém as suas máquinas ligadas há mais de 25 anos. A sua estreia com “Scanner” — foi a primeira edição da Ash International, subsidiária da Touch, em 1993 —, mostrava alguém interessado em captar o mundo para o aprisionar nas suas composições. Ao longo deste tempo, Scanner nunca desistiu de procurar, tornou-se um incansável músico que sempre olhou a nova e velha electrónica como uma nascente inesgotável de ideias. Logicamente, os tradicionais modulares são origem para muito do seu actual entusiasmo, mas as novas gerações dessas máquinas também lhe dão abastado alimento para a sua curiosidade. Aceitou, por isso, com esperado gosto, o convite do Semibreve para estar em residência no festival com a superior marca de modulares portuguesa ADDAC System, de onde criará a matéria prima para o seu concerto. Adicionando valia a esta estreia, o cineasta Miguel C. Tavares irá criar o filme para esta excursão de ida e volta ao mundo das máquinas.

Suzanne Ciani

O Buchla 200 é uma máquina de música magnífica, imperscrutável para muitos, mas que nas mãos certas consegue ser uma fonte de inventividade sem fim. Um par dessas mãos pertence a Suzanne Ciani, por culpa de uma vida inteira passada diante este instrumento, fitando-o nos olhos, explorando-o e testando os seus maleáveis limites. Muito do crédito que testemunhamos neste ressurgimento da electrónica modular deve-se aos caminhos que Ciani trilhou durante a sua longa carreira, sendo por isso importante, e até necessário, prestar-lhe o tributo devido a quem soube ser curioso antes de todos os outros. Ganhou em tempos o título de primeira estrela dos sintetizadores mas a qualidade da sua arte precisa de outros rótulos. E, sobretudo, da nossa presença, porque vamos poder ouvir a sua música em gloriosa quadrofonia em pleno Theatro Circo. 

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