Beatriz Ferreyra é uma compositora eletroacústica argentina.

Trabalhou na ORTF (Televisão Nacional Francesa), como membro do Groupe de Recherches Musicales (GRM), sob a orientação de Pierre Schaeffer (1963-70), tendo feito contribuições para o seu livro Traité des Objets Musicaux (1966), e participado na realização de Solfège de l’Objet Sonore, também de Pierre Schaeffer (1967). É uma compositora livre desde 1970. Em 1975 tornou-se membro do Collège des Compositors do GMEB (Groupe de Musique Électroacoustique de Bourges). Desde 1967 o seu trabalho é comissionado por concertos e festivais, faz música para cinema, televisão, teatro e vídeo, escreve artigos e dá seminários e conferências. Desde 1975 tem recebido diversos prémios e reconhecimentos. Em 2014 foi eleita Membro Honorário do CIME/ICEM (The International Confederation of Electroacoustic Music).

No Festival Semibreve vai manipular um sistema de difusão de oito canais.

Blessed Initiative é um projeto de Yair Elazar Glotman, que sugere um estado dissonante e coexistente de extremos altos e baixos. O álbum procura articular um estado mental de simultaneidade, onde o equilíbrio é fugaz, frágil e a sua escassez é abraçada. Estados opostos coincidem, contrastam e refletem, criam momentos de incerteza e insegurança. O absurdo e por vezes até o êxtase são resultados possíveis, na tentativa de canalizar a ansiedade para uma força criativa e não debilitante. Num ambiente onde personas são somas das imagens que projetam, os sons também não são prova de invenção mas antes de combinação, curadoria e edição em constante mudança. A persona final é uma soma do escolhido e do apagado, bem como aquilo que pode ser projetado do exterior, criando um sujeito confuso e em conflito. Os sons recolhidos são tentativas de compor sobre terrenos incertos, e refletir a ansiedade libertada pelo encontro e interação de todas estas fontes. Enquanto projeto singular, Blessed Initiative pára para comentar as condições que formam a composição de Glotman antes e depois desta, e reconhece-a como um processo não-linear e contínuo.

O foco no processo e na incerteza é visível na formulação do álbum, na sua rearticulação e ciclos de repetição e desvio. As peças foram compostas por sons gerados no sistema KYMA, gravações pessoais foley, bem como técnicas de manipulação de fita. Sons menores em escalas maiores e ajustes microtonais sugerem uma esfera harmónica ambígua. Estes foram depois integrados em estruturas rítmicas idiossincráticas, por vezes integrando espaços reais e corpos ressonantes como reverb e câmaras de eco aumentado. Sons orgânicos concretos, quase-reconhecíveis contrastam com espaços abstratos e associam-nos a experiências táteis. Estas texturas e estruturas são uma paleta que se forma e deforma à medida que se desloca ao longo do álbum.

Yair Elazar Glotman é um músico e artista sonoro com formação clássica sediado em Berlim, cujos trabalhos anteriores editados pela Subtext incluem o Lp “Études” e uma faixa colaborativa com James Ginzburg para o filme experimental “Nimbes”. Glotman também lançou trabalhos sob vários pseudônimos, sobretudo como Ketev (Opal Tapes, Portals editions).

Sediado em Oslo, na Noruega, o compositor Helge Sten tem vindo a trabalhar este estilo musical desde o início da década de 90, um minimalismo granular e profundamente atmosférico que atrasa o tempo e explora as mais ínfimas partículas do som. O conceito de Deathprod nasce em 1991 quando Sten se apercebe que a complexa ordem de eletrónica caseira, samplers, sons processados e efeitos analógicos – cumulativamente referenciados como “Áudio Vírus” – poderiam adquirir uma dimensão musical acima (e para lá) da mera técnica. Samplers quase obsoletos e dispositivos de reprodução distorcem e transformam sons em mutações irreconhecíveis. Os vírus propagam-se em camadas sobrepostas e complexas de detritos sonoros, criando uma espécie de composição celular. Sten é membro fundador do grupo de improvisação norueguês Supersilent e produziu discos de Motorpsycho, Susanna, Jenny Hval, Arve Henriksen, entre outros. Em 1998, ao lado de Biosphere, transformou eletronicamente a música do compositor contemporâneo norueguês Arne Nordheim. Recentemente compôs para os lendários instrumentos inventados de Harry Partch, numa encomenda do EnsembleMusikfabrik, de Colónia.

Agora a trilogia de álbuns de Deathprod vai ser lançada pela primeira vez em vinil e estará disponível para download a 5 de maio na Smalltown Supersound. Prensados por Rashad Becker na Dubplates and Mastering em Berlin, formam o cânone completo e oficial de Deathprod.

Vindo da Nova Zelândia, Fis produz música eletrónica física, vibrante e exploratória, fortemente influenciada pelos contextos onde se insere e pela sua relação com o mundo natural. Depois de serrar os dentes em poderosos sistemas de som um pouco por toda a Nova Zelândia, Oliver Peryman lançou uma série de EP’s de destaque pela Samurai Horo, Exit e Tri Angle em 2012/13, seguidos pelas épicas performances A/V no palco principal do festival Berlin Atonal em 2014 e 2015, e pelo lançamento de um EP e do seu LP de estreia The Blue Quicksand is Going Now, pela editora londrina Loopy em maio de 2015.

 

Em 2016 lançou o segundo álbum, From Patterns to Details, pela Subtext. As sete faixas do álbum fluem com uma vitalidade aparentemente caótica, naturalmente evolutiva, usando uma paleta não quantificada de sons atomizados para modelar os processos pelos quais a natureza tira o melhor partido dos seus ambientes, e do seu ciclo perene de crescimento e declínio, de um modo compreensivo que ultrapassa a comunicação verbal. Operando numa escala de reconhecimento de padrões micro-para-macro, Fis integra os espíritos das paisagens escarpadas com a sua fauna e flora, numa espécie de transferência arenosa e fluida de genes horizontais entre sistemas pessoais e externos… expor-se ao seu álbum é uma experiência que desafia os limites da linguagem.

O poeta inglês Rick Holland, que colaborou com Brian Eno e Jon Hopkins, ficou tão comovido pelo trabalho de Fis que escreveu um poema para cada uma das faixas.

 

Uma estreia em Portugal promovida pelo Semibreve.

Em meados da década de 90, Wolfgang Voigt, mais conhecido por pseudónimos como MIKE INK, STUDIO1 ou GRUNGERMAN, e por ser a força motriz por trás da ascensão do techno minimal de Colónia, chegava a um pico temporário na sua carreira. No entanto, nunca deixou de perseguir e desenvolver a sua verdadeira paixão pela música criativa. Nos anos 80, Voigt começou a trabalhar um conceito que ele próprio idealizou e denominou de BLEI. Usando os mais variados modelos de som, extraía elementos de música clássica, polka ou metais, e juntamente com música pop eletrónica e Schlager (música popular alemã), criava um distinto e único estilo de música pop que se encaixava na subcultura da época. No início dos anos 90, influenciado pelo techno, Voigt começou a fazer experiências com um timbale marchando sobre loops de cordas flutuantes, fortemente alienados. Estas faixas elegíacas, a sua ausência de início ou fim, ao mesmo tempo inércia e eternidade, a sua estrutura intoxicante, suave e parcialmente amorfa soavam-lhe como gás em evaporação e, assim, nasceu GAS. GAS é a visão de um corpo sónico existente entre Schönberg e Kraftwerk, entre a trompa e o bombo. GAS é Wagner tornado glam rock, é Hansel e Gretel em ácidos. GAS está aqui para nos levar numa marcha aparentemente interminável pelos bosques subterrâneos – e pela discoteca – de uma imaginária e nebulosa floresta.

Na sua música, Wolfgang Voigt não cria uma referência direta aos sons originais nem mesmo à própria floresta. Em vez disso tenta reduzir o “material” à sua estrutura estética básica recorrendo a diferentes técnicas de zoom, loop e alienação, de forma a libertá-lo do seu significado e contexto originais. A sua intenção é a de criar uma espécie de essência estética, uma caverna (detalhe/loop/repetição) onde nos podemos perder.

E para todos os que pensam que tudo isto é demasiado difícil de digerir, entendam-no apenas como música admirável.

Karen Gwyer nasceu no sul dos Estados Unidos e cresceu no norte do país. Agora sediada em Londres, as suas expansivas e predominantemente analógicas performances ao vivo variam entre vibrações hipnóticas, densamente melódicas, carregadas de baixos techno e uma psicadelia ácida diversionária.

Com uma mão cheia de gravações lançadas até à data pela Kaleidoscope, No Pain In Pop e Opal Tapes, já fez duas digressões e continua a aparecer regularmente nos acontecimentos das editoras. Produziu remixes para a Nous, Software, Public Information, Domino, Kaleidoscope e Different Fountains Editions, e criou uma série de peças comissionadas para o Open Music Archive.

Música e compositora, Kyoka trabalha entre Berlim e Tóquio. Conhecida por uma abordagem musical caótica e direta e por um som bruto e pesado, a sua música resulta num pop-beat quebrado, com ritmos experimentais mas dançáveis.

Cresceu no Japão, onde na infância teve lições de piano, flauta e shamisen. Enquanto ouvia e gravava programas de rádio em cassetes, começou a sentir-se atraída pelas possibilidades de as arranhar para trás e para a frente e, rapidamente, passou a usar o gravador enquanto brinquedo, cortando, editando e produzindo os primeiros sons mais grosseiros.

 

Em 1999 interessou-se pelo potencial dos sintetizadores/computadores e durante a sua estada em Los Angeles entre 2004 e 2008, as suas músicas começaram a passar nas rádios locais.

 

Em 2008 o primeiro mini-álbum »ufunfunfufu« foi lançado pela editora berlinense onpa))))), seguido por »2ufunfunfufu« em 2009 e »3ufunfunfufu«, com lançamento exclusivamente em digital.

Em 2012 assistimos ao lançamento do primeiro EP em 12’’ »iSH« pela raster-noton, seguido de »is (is superpowered)«, o seu primeiro álbum de longa duração, em maio de 2014.

Esta citação de Ryuichi Sakamoto talvez consiga resumir o talento excecional de Kyoka: “Pânico! Parece uma caixa de brinquedos virada do avesso, como é que ela consegue fazer sons tão bonitos e tão caóticos? Adoro!”

Lawrence English é um compositor, artista e curador sediado na Austrália. Tendo por base uma série de investigações estéticas, o seu trabalho explora a política da perceção e levanta questões sobre campo, perceção e memória. English recorre a diferentes abordagens, incluindo viscerais performances ao vivo e instalação, para criar obras que questionem os participantes sobre a sua relação com espaço e representação.

Na última década, as investigações sónicas de English atravessaram um caminho divergente onde linguagens musicais e ambientes são valorizados na mesma medida. O seu trabalho questiona as relações estabelecidas entre som, harmonia, distorção e estrutura e é esculpido numa complexidade esmagadora que colide com ondas ferozes de baixa vibração. A música é evocativa e convida o ouvinte a explorar as próprias narrativas e impressões, moldadas pelas suas histórias subjetivas e experiências. Os seus álbuns mais recentes Cruel Optimism e Wilderness Of Mirrors são um festim de “densidades e extrema dinâmica” e desenvolvem-se numa “estética de substituição da distorção harmónica”. É a outra metade de HEXA com Jamie Stewart, que colaborou recentemente com David Lynch no projeto Factory Photographs, e colabora regularmente com John Chantler (Holy Family), Liz Harris (Slow Walkers), Stephen Vitiello, Werner Dafeldecker, entre outros.

Enquanto produtor, English tem desenvolvido projetos com diferentes artistas incluindo Blank Realm (Illegals In Heaven), Tujiko Noriko (U, Blurred In My Mirror) e Tenniscoats (Totemo Aimasho, Temporacha). O seu trabalho em pós-produção inclui álbuns de Ben Frost (Aurora, By The Throat, Theory Of Machines), Thor And Friends (In C), Norman Westberg (13, MRI), Tim Hecker (sequence editor, Virgins) e David Toop (sequence editor, Lost Shadows). Foi comissionado pelo consagrado coletivo de performance Circa, e participou em produções teatrais para as companhias The Barbican e the Queensland Theatre Company. Em 2015 e 2016 compôs bandas sonoras para cinema que incluem o premiado filme grego Limbo e o thriller gótico sul-australiano Down River.

Rabih Beaini, também conhecido por Morphosis, é uma voz solitária na música eletrónica. Poucas pessoas compõem espetáculos tão desafiantes e intrigantes como ele, onde dark wave, krautrock, pós-tudo e techno se juntam numa harmonia de hardware assombrado. A sua editora Morphine é de igual modo sonoramente imprevisível, assim como o são os seus remixes ou fabulosos LP’s como a imediatamente intemporal e destacada obra What We Have Larned. Estranhas e imperdíveis, as produções do artista libanês soam tão vivas e ao vivo como qualquer coisa que faça num club, tornando-o verdadeiramente inigualável.

Duo de Bruno Silva e Carlos Nascimento em rotação sideral pela house e pelo techno conduzido pela visão psych da kösmiche e de algum free jazz mais espiritual. Espécie de compêndio sonhador e expansivo do romance, dos anseios e da vivência em alerta narcótico da urbe com a praia e as suas memórias em fundo, têm editado irregularmente por selos como a WT, Tasteful Nudes ou Royal Oak. 

Steve Hauschildt é um músico e artista americano de Cleveland, Ohio. Foi membro da banda seminal Emeralds de 2006 a 2013. Um veterano na comunidade da música experimental, as suas composições usam sintetizadores, computadores e processamento digital para simultaneamente homenagear e subverter as normas estabelecidas da música eletrónica. Para além de uma atividade prolífera com os Emeralds, lançou quatro álbuns pela Kranky, uma antologia do seu trabalho pela Editions Mego e fez a curadoria de uma compilação para a Air Texture. “Strands”, o seu mais recente trabalho, recebeu enormes elogios aquando do seu lançamento em 2016.

Valgeir Sigurðsson é um compositor e produtor islandês. Por muito que pudesse ser descrito como um pós-minimalista especulativo com uma desafiante sensibilidade pós-punk e um fascínio pelo erro e improvisação, convencionalmente um músico acústico-clássico, com um profundo conhecimento do espantoso potencial da eletrónica e um amor declarado pela beleza e inteligência do pop estranho, Valgeir Sigurðsson é um inspirado e industrioso fazedor de grandiosa música do norte, de um soul inquietante, uma visceral, diabólica música folk.

Enquanto editor e curador da Bedroom Community, editora que fundou em 2006, o seu trabalho com Nico Muhly, Ben Frost, Paul Corley, Sam Amidon e Daníel Bjarnason, revela uma apreciação constantemente evolutiva da diversidade da música no mundo. Os três trabalhos a solo, Ekvílibríum (2007), Draumalandið (2010) e Architecture of Loss (2013), serão seguidos em 2017 pelo intensamente reflexivo Dissonance.

Com um diligente sentido de onde procurar e saber para onde se move a música moderna de género liquefeito, as suas colaborações incluem Björk, Bonnie ‘Prince’ Billy, Feist, Damon Albarn, CocoRosie, Sigur Rós, Jóhann Jóhannsson, Brian Eno, Tim Hecker, Anohni, Oneohtrix Point Never e Alarm Will Sound. Esta série de prolíferas relações pessoais e profissionais contribuíram para que concebesse uma forma privada e moderna de produzir música, que elegantemente acumula séculos de paciente técnica e refinamento, com décadas de inovadora experimentação eletrónica e progresso pós-pop.

Enquanto adepto do trabalho em ambientes eletrónicos e de estúdio, e criando evocativas bandas sonoras para cinema ou composições para orquestra, o seu trabalho para teatro, dança e instalações revelam que Sigurðsson pensa como pintor e escultor na mesma proporção com que é músico e artista sonoro.

Spencer Doran e Ryan Carlile, dupla de Portland, Oregon, formam a entidade musical open-source Visible Cloaks, cujo álbum de estreia “Reassemblage” foi lançado via RVNG em Fevereiro de 2017.

Em “Reassamblage”, Doran e Carlile incorporam uma série internacional de instrumentos virtuais para criar uma ideia de pan-globalismo através da simulação digital, com tons e cores que, juntos, formam um organismo vivo de experiência sensorial. Com “Fourth World” inspirado no ambiente e no pop japonês dos anos 80 (também explorado por Spencer em “Fairlights, Mallets, and Bamboo”) uma pedra de toque fundamental para dar novo fôlego às suas influências musicais mundanas, Visible Cloaks filtram e formam material para o tornar novamente relevante.

Muitas vezes, a dupla despe os elementos tonais da sua especificidade ou aleatoriza melodias de forma a torná-las mais estimulantes e lúcidas. Surgem padrões essencias, aumenta a experiência consciente. Nestes momentos, a linguagem musical de “Reassemblage” encontra ressonância ilimitada e apresenta um caminho para realidades desabitadas.

Ao vivo, tudo isto se transforma num convidativo e imersivo festim multi-sensorial, com a estética visual perfeita da artista digital Brenna Murphy (também autora do design e dos vídeos de Reassemblage), estendendo a exploração do espaço global presente no álbum para uma virtual, visceral realidade.